Sagrados são os tomates do Padre Inácio

A redacção de um jornal é um sítio sagrado, diz Pedro Tadeu, director do “24 Horas” e ex-militante do PCP. Sagrado é o sigilo profissional dos jornalistas, dos padres, dos advogados e dos médicos, é a conclusão a retirar do conteúdo das páginas interiores de uma recente edição daquele matutino. O tom lamuriento, queixoso e vitimizante que a direcção imprime ao jornal, compreende-se.

Depois de uma manchete falsa – onde se afirmava que até os telefones de Sampaio foram investigados – resta-lhe manipular a opinião pública e mostrar-se aos leitores incautos como vítima do sinistro Souto Moura. É verdade que centenas de números de telefone de figuras públicas estavam no envelope nº 9. Mas o “24 Horas” não conseguiu demonstrar, até agora, que isso resultasse de qualquer acto da investigação. Ou que, enviada a informação por lapso, os inspectores da PJ e/ou magistrados do Ministério Público tenham vasculhado essa lista e “investigado” os telefonemas feitos pelo Presidente da República.

O sagrado é um conceito religioso e a religião é algo que pertence ao íntimo de cada um de nós, que se desenvolve e existe na nossa vida privada e que relaciona, quando muito, os que partilham a mesma fé. O que é sagrado não se discute, não se aperfeiçoa, não se interpreta, não se altera. Adora-se, respeita-se cegamente, e mata-se bastante, por causa disso. Ao Pedro Tadeu, pelos vistos, foge-lhe a língua para tempos não muito remotos, quando ainda acreditava. Quando tinha fé, crença, esperança nessa abordagem religiosa da Política que é o Comunismo.

Será assim tão sagrado, o sigilo profissional dos padres, médicos e advogados? No caso dos médicos, o sigilo desaparece quando estão perante as chamadas doenças contagiosas de comunicação obrigatória às autoridades ou quando trabalham para bancos e empresas seguradoras. Quem já pediu um empréstimo e teve que ir fazer um exame médico geral sabe bem disso.

No caso dos advogados, o sigilo serve acima de tudo para não terem que se preocupar com o facto de partilharem o conhecimento de crimes cometidos, que não são obrigados a comunicar às autoridades e, muitas vezes, de crimes por cometer. Servem os seus clientes, servem a Justiça e servem-se bem, na maioria das vezes. Um advogado pobre é algo de tão raro como uma farmácia falida ou um médico desempregado. E é preciso não esquecer que um número substancial de peças processuais vai parar às mãos dos jornalistas saindo das pastas dos advogados.

No caso dos padres, o que se confessa são pecados, violações dos 10 Mandamentos. Tirando um ou dois (“Não matarás, não roubarás”…) todas essas violações têm mais a ver com a consciência de cada um do que com o dano que causam à sociedade. Mas é a única das actividades já referidas onde o “sagrado” ainda tem alguma justificação. Embora o sagrado traga consigo a obrigatoriedade do segredo, do ocultar – e a forma como a Igreja ocultou as práticas de padres pedófilos é um sinal do sagrado mal orientado.

Voltando ao princípio: a redacção de um jornal é um sítio sagrado, diz o director do “24 Horas”. Tal como o sigilo profissional, o direito de os jornalistas não revelarem as suas fontes. Muito bem. Mas nenhum direito vive isolado, na sociedade. Tem que se equilibrar em relação a outros direitos. Nem o Gabinete do Procurador-Geral da República nem a redacção do “24 Horas” são locais sagrados. São apenas locais de trabalho, cujos trabalhadores estão submetidos às leis deste País. Sagrado, sagrado, como se dizia quando eu era criança, só os tomates do Padre Inácio. Sob risco de, um dia destes, ainda termos um busto do Pedro Tadeu ao lado da Capelinha das Aparições.

4 Responses to Sagrados são os tomates do Padre Inácio

  1. Neo diz:

    Um excelente ponto de vista!O blog está fantástico. Obrigado pelo comment.

  2. Pedro Ferreira diz:

    O Observador said…
    Vocês, jornalistas, são um pouco estranhos. “Fonte do Ministério da Educação” é, obviamente, diferente de “fonte não identificada”. E o estudante Pedro Ferreira, que questiona o professor, antes de mim, é um caso perdido. A Democracia está ameaçada? Com uma busca legítima, feita por quem de Direito, com magistrados do Ministério Público, ao abrigo de leis aprovadas por Parlamentos eleitos democraticamente? Este jovem engoliu todo o lixo jornalístico com que o “24 Horas” bombardeou os leitores, nos últimos dias…

    O Observador

    http://maquinazero.blogspot.com/

    12:46 AM

    Pedro Ferreira said…
    Caro Observador: O sigílo profissional jornalístico está consagrado na Constituição Portuguesa, mãe de todas as leis, e por conseguinte é algo que é inviolável, salvo raríssimas exepções. Será por acaso que o jornalismo é a unica profissão à qual a Constituição faz referência? Estas buscas a redacções, independentemente do jornal que seja, são “pidescas”. Fazem lembrar o Estado Novo, onde para arranjar as informações que se queria não importava os meios. Os argumentos eram os mesmos que Observador usou. Na prespectiva de Salazar talvez este fosse o seu conceito de democracia. O que o senhor Procurador da Républica tem de explicar, é como os registos telefónicos de altas patentes do estado foram parar ao processo “casa pia”, quando estes nem sequer estavam envolvidos. O resto é fachada Observador. Por isso acusar jornalistas de revelar dados que já nem sequer estavam abrangidos pelo segredo de justiça é uma palhaçada. Digno de um país do terceiro mundo. Deixe-me dizer-lhe que tem um conceito muito deturpado do que é democracia.

  3. Ainda que atrasada, vai aqui uma chamada de atenção: a resposta ao jovem Pedro foi promovida a post e está aqui

  4. Argala diz:

    Muito mal pensadinho… É raro mesmo na extrema direita nazi ver tanta asneira junta

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