Ai, coelhinho, coelhinho…

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se eu fosse como tu! Se eu tivesse tanta lata e tanta lábia! Se eu fosse tão lampeiro e ligeiro, tão escorreito e saltitão! Se eu fosse como tu, coelhinho, coelhinho, tão sábio e tão matreiro, tão raposa e tão furão, tão branquinho e tão fofinho! Se eu fosse como tu, coelhinho, coelhinho, também estava agora a cuspir para o ar sem me cair na testa, a atirar pedras sem partir os meus telhados de vidro, a bater no peito sem pecados para confessar, enquanto pegava no primeiro calhau que haveria de atirar!

Ai coelhinho, coelhinho, se isto fosse um país a sério, andavas há muito tempo na manga do casaco de uma amante de um industrial têxtil do Vale do Ave! Estavas há muito no forro das botas de uma brasileira enregelada algures num bar de alterne nos arredores de Bragança! Passeavas-te há muito no topo do crâneo de um africano transido de frio com a agreste nortada que sopra nas faldas da Serra da Estrela! Fazias há muito de astracã, tingido de negro e cortado em mantinha, a aquecer as pernas flácidas e encarquilhadas de um banqueiro reformado na sua mansão da Quinta da Marinha!

E não te limitavas, coelhinho, coelhinho, a mandar postas de pescada para o ar, como se nada tivesses a ver com o que este País é e foi, nos últimos 30 anos, tu, ó coelhinho desavergonhado, que arrastaste as botas por mais ministérios do que carros eu tive em toda a minha vida e sentaste o rotundo traseiro em mais cargos poderosos que ataques de acne eu sofri, na minha fugaz juventude!

Ai coelhinho, coelhinho! Num país a sério, dizer o que tu disseste sobre a tragédia de Entre-os-Rios faria com que te pendurassem pelos calcanhares de uma ponte dez vezes mais alta, com uma corda de piano atada ao abono de família e um peso de 30 quilos na outra ponta…

18 Responses to Ai, coelhinho, coelhinho…

  1. Luar diz:

    Caro Máquina-Zero, partilho inteiramente o seu «desalento». Mas quase me consola a sua inspiradíssima visão dos destinos possíveis do coelhinho, coelhinho, se este fosse um país a sério.

  2. Obrigado, cara Luar. Espero que regresse em breve à blogosfera…

  3. Brilhante, simplesmente brilhante caro MZ, o mesmo já não se pode dizer de tão nefasta figura que é esse coelhinho, que não da Páscoa mas da desgraça.

  4. Portugal é lindo e mais nada... diz:

    Jorge Coelho, apelidado com alguma piada de “coelhinho, coelhinho” pelo caro máquina zero (MZ)(um aparte, não gosto do nome. São gostos. Há quem diga que os gostos não se discutem, mas sou da opinião que se discutem. E de que maneira. E ainda bem. Máquina Zero é um nome horroroso. Como também não gosto da foto), demitiu-se horas depois da tragédia que causou a morte de 59 pessoas, no caso da queda da ponte, em Entre–os-Rios. É discutível a sua demissão, com uma tragédia como aquela. Porém, aquando da mesma, assumiu as suas responsabilidades políticas. Não sou do PS nem tenho especial simpatia por Jorge Coelho, mas em abono da verdade se diga, que muitos provavelmente nem assumiriam responsabilidades políticas.
    De lamentar as mortes e que a culpa tenha morrido solteira. Não se compreende como a nossa justiça não tenha encontrado culpados. Não conheço o processo, se não os encontrou, cremos acreditar que não existem. Mas, em último caso, o responsável é o Estado.
    ” (…) Ai coelhinho, coelhinho! Num país a sério, dizer o que tu disseste sobre a tragédia de Entre-os-Rios faria com que te pendurassem pelos calcanhares de uma ponte dez vezes mais alta, com uma corda de piano atada ao abono de família e um peso de 30 quilos na outra ponta…, escreve o MZ. Por favor, esta frase põe em causa um Estado de Direito Democrático. Quer fazer justiça pelas próprias mãos?!

  5. Meu caro “Portugal é lindo e mais nada”: Jorge Coelho demitiu-se, é certo, mas também disse que “num país a sério, a culpa não morria solteira”. Se Portugal não é um pís a sério, deve-se a quem nos governou nos últimosn trinta anos. E Jorge Coelho foi um deles…

  6. Portugal é lindo e mais nada... diz:

    “Meu caro “Portugal é lindo e mais nada”: Jorge Coelho demitiu-se, é certo, mas também disse que “num país a sério, a culpa não morria solteira”. Se Portugal não é um pís a sério, deve-se a quem nos governou nos últimosn trinta anos. E Jorge Coelho foi um deles…”, diz MZ.
    Portugal é um País a sério. Você parece ter saudades de um regime ditatorial e autoritário. Se não está bem, emigre.

  7. Pois é, meu caro! Jorge Coelho não pode dizer qeu este não é um País sério, depois de o ter governado, nos últimos 30 anos. “Reality bites”… eh, eh, eh…

  8. Portugal é lindo e mais nada... diz:

    Portugal é um país sério. E, somos todos nós que devemos fazer com que assim seja. Pena que a culpa tenha morrido solteira, mas aqui também temos a nossa quota de responsabilidade. Este é um assunto tão sério, caríssimo.

  9. Pois. A vitimização globalizante. Nós é que somos culpados. Todos. Por ter nascido…

  10. Portugal é lindo e mais nada... diz:

    Somos todos responsáveis, o povo português é responsável, porque vais às urnas e vota nos seus governantes. Os que não votam deviam estar caladinhos.

  11. Bernardino diz:

    Um assunto tão sério como o da queda da ponte, em Entre-os-Rios, é claro que todos os portugueses são responsáveis. Pois, quem nos governa é eleito pelos que vão votar. Devem votar conscientemente logo têm de se responsabilizar onde colocam a cruz. Quem não vota está no seu direito, mas depois não tem como argumentar seja a favor ou contra dos actos dos políticos. Não votou não tem como se queixar.

  12. Autoflagelante. Ofereçam-lhe um chicote, no Natal…

  13. Portugal é lindo e mais nada... diz:

    ” (…) Autoflagelante. Ofereçam-lhe um chicote, no Natal…, escreve MZ.

    Que bela resposta a sua. É uma resposta mesmo de um democrata, sem dúvida nenhuma. É tão democrata como esta que está no fim deste seu post: ” (…) Ai coelhinho, coelhinho! Num país a sério, dizer o que tu disseste sobre a tragédia de Entre-os-Rios faria com que te pendurassem pelos calcanhares de uma ponte dez vezes mais alta, com uma corda de piano atada ao abono de família e um peso de 30 quilos na outra ponta…

    O senhor quer fazer justiça pelas próprias mãos.

  14. Sentido figurado, ironia, figuras de estilo, metáforas, já ouviu falar?

  15. Portugal é lindo e mais nada... diz:

    Deste lado, não nos parece que seja esse o caso.

  16. Pois… A vista, da Esquerda, é sempre meio distrocida…

  17. […] Nota- Este post foi colocado em Outubro de 2006. Repito-o, agora, por causa disto. […]

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