Jornalistas de causas (II)

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Neste espaço, pretendo assinalar, com alguma regularidade, o “enfoque” de Esquerda com que muitos factos são encarados, pelos nossos jornalistas. As principais causas da Esquerda, essas, são por demais conhecidas: o culto dos imigrantes, o fascínio por todas as sexualidades alternativas, o elogio da marginalidade e do crime, a aversão à família tradicional, o asco à Pátria e o ódio ao Ocidente. Apenas para citar algumas…

  • Começo pelo “camarada” Carlos Dias, do Público. Consegue encher quase um quarto de página, na edição do dia 22 de Novembro, com a notícia da agressão a uma professora. Descreve em pormenor o que se passou, onde se passou – numa escola junto ao Bairro da Esperança, em Beja – sem escrever uma única vez a palavra “cigano” ou “droga“. Isto, embora o ataque à professora, que precisou de tratamento hospitalar, tivesse sido levado a cabo por familiares de um aluno e a directora da escola lhe salientasse que “a principal causa dos conflitos deve ser atribuída ao facto de, no Bairro da Esperança, existir ‘gente sem ocupação’ que potencia os conflitos. Parabéns, Carlos Dias!
  • Uma legenda, sem autor identificado, na revista Visão de 2 de Novembro, mostra dezenas de cadáveres, “mortos no bombardeamento de uma área tribal pela aviação dos EUA (…) A América de Bush soma e segue”. É uma pena que não seja possível identificar o autor da legenda! Sendo assim, e como manda a Lei, culpe-se o director, Pedro Camacho.E porquê? Bem, de acordo com Francisco Gorjão Henriques, jornalista do Público (edição de 31.10.06), um porta-voz militar do governo paquistanês, general Shaukat Sultan, declarou à Associated Press que o ataque foi feito pela força aérea paquistanesa. Parabéns, Pedro Camacho!
  • A edição do Expresso de dia 25 de Novembro pregou-me um susto dos grandes. Ao chegar à página 36 do primeiro caderno, dei por mim a ler o defunto Luta Popular, do MRPP (ambos, o jornal e o partido, já só existem online…) ou o já desaparecido (nem online…) “A Voz do Povo”, jornal da UDP (esta, ainda está online…). A jornalista que me pregou tal susto chama-se Margarida Mota e conseguiu encher uma página com a descrição desse horror que são os “Novos muros da vergonha”. E vai de comparar a divisão de um país, por decisão de uma ditadura assassina (Estaline, minha rica, diz-lhe alguma coisa? Não? Pois… Bem me parecia..) com o muro para impedir a entrada de imigrantes ilegais nos EUA. Numa demonstração de assinalável inteligência, a menina coloca no mesmo saco os muros que dividem a Coreia do Norte e Sul, Israel e os territórios palestinianos, o Paquistão e a Índia, a Arábia Saudita e o Iémen, a Arábia Saudita e o Iraque, a fronteira que divide Chipre. O Avante não faria melhor.
  • A minha preferida, (confesso!) entre todos os jornalistas que se destacam pelo amor às causas, é a Alexandra Prado Lucas Coelho. Gritem ‘sionistas’ e ela avança logo, teclado em riste, peito feito contra os assassinos sanguinários que massacram o povo palestiniano. É no amor aos árabes que a Alexandra Prado Lucas Coelho se revela, em todo o esplendor. Na última (ou penúltima ?) revista Pública, a Alexandra enche DEZ páginas com um copioso choradinho em torno do mote “A arte responde à guerra”, onde descreve o que os artistas libaneses faziam, quandos os israelitas os bombardeavam. Não há-de o tio Belmiro deitar as mãos à cabeça com as finanças do jornal! A Alexandra Prado Lucas Coelho nunca conseguirá escrever uma linha sobre crianças israelitas mortas num atentado terrorista, com a mesma emotividade com que fez esta reportagem. Aposto.
  • Na revista que acompanha o Diário de Notícias e o Jornal de Notícias, no dia 29 de Outubro, um tal Henrique Machado saca da pena inspirada e vai de narrar a tragédia dos “50 imigrantes de Leste” que, coitadinhos, “vivem há três dias em Cacilhas (…) na mais profunda miséria. Dormem ao relento e à chuva e vivem das esmolas nas ruas de Lisboa.” Acontece que o próprio Henrique Machado desmente o essencial da notícia: não são imigrantes de Leste, mas sim ciganos romenos que, acima de tudo, não querem trabalhar. Parabéns, pois, ao Henrique Machado, por esta inspirada prosa, cuja introdução ele próprio desmente, no texto. Original e a ultrapassar aquela burlesca rubrica “O Público errou…” Parabéns, Henrique Machado!
  • O Vladimiro Nunes, brilha na edição de de 28 de Outubro do semanário “Sol“. Patinhando sobre uma história que já deu pano para mangas a outros jornais, parte-nos o coração com o relato do drama de um tio que quer ficar com a tutela de dois sobrinhos, cujos pais faleceram num desastre de aviação. Acontece que o pai era guineense e negro, a mãe portuguesa e branca. O jornalista aceita a história e dá corpo ao relato, sem nunca perceber que ali também está em jogo uma avultada indeminização pela morte dos progenitores. Para o Vladimiro Nunes são “Sete anos de inferno” para “dois meninos que continuam longe da família.” Claro. Porque família, só a do tio, africana. A parte branca da família dos dois meninos não conta. Nem a ligação à família com quem vivem, e com que já ficavam, sempre que os pais viajavam. O Vladimiro Nunes termina a peça citando algo de chocante, dito pelo embaixador da Guiné-Bissau:”Não sendo as crianças de nacionalidade portuguesa, é importante que mantenham laços, não só afectivos, mas culturais e identitários com a pátria guineese”. Ao embaixador da Guiné-Bissau, não se pede mais. Mas o Vladimiro podia saber que as crianças, sendo filhas de mãe portuguesa, têm automaticamente direito à nacionalidade portuguesa. E desconfiar de que lhe estavam a vender gato por lebre. Parabéns, Vladimiro Nunes!
  • Finalizando esta pequena série, temos o João Dias Miguel, também da revista Visão. Numa reportagem sobre um imigrante guineense em Espanha, o João Dias Miguel repete, feito caixinha de música, o mantra preferido da Esquerda: os imigrantes são bons, bonitos e dão lucro. Aproveita para destacar uma mensagem anti-nacional, que sempre fica bem a quem é de Esquerda, ao destacar as palavras de Mário, o guineense imigrado em Madrid: “Espanha não é como Portugal, onde os negros habitam em barracas de guetos degradadas”. Pois não, Mário. Também há lá brancos, nesses bairros. E há negros que não vivem em barracas de guetos degradadas. Mas parabéns de qualquer forma, João Dias Miguel!

4 Responses to Jornalistas de causas (II)

  1. Xica da Silva diz:

    – Desta vez não é a Prado Coelho, mas a Lucas Coelho. Se morressem tantas crianças israelitas por aí, os israelitas seriam os primeiros a alardear o facto.

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    Líbano A arte responde à guerra

    Alexandra Lucas Coelho

    Dois tambores, uma guitarra e Ritta, como um xamã com a aldeia à volta.
    Gente sentada no chão e em cadeiras, encostada às paredes e às janelas. Rapazes de rabo de cavalo e raparigas de tranças. Raparigas de umbigo à mostra e raparigas platinadas. Rapazes de barba e óculos de massa, uns de “piercing”, outros de gravata, um de olhos pintados. Pais de filhos grandes, pais de bebés. Uma rapariga de cadeira de rodas. Aldeia global numa galeria de Beirute, lotação esgotada.
    Mini-vestido de pele, juba negra, Ritta pula, ondula, bate com as mãos nas coxas, ri. Tem algo de extremo oriental nos olhos e quando ri ainda mais. Percute as palavras em francês no original: “Le vroum vroum des machines aériennes c”est si bon / on dirait des mammouths qui font du bouche à bouche…”
    A aldeia ri com ela, em francês, em árabe. Não riem de fora, estão e estavam cá. Verão 2006 sob o Líbano, um céu de mamutes num boca-a-boca. rittabaddouraparmislesbombes chamou Ritta ao blog que começou a 19 de Julho, como um caderno de poemas partilhado. Hoje é sexta-feira, 10 de Novembro, e esta é a “jam session” do que escreveu entre as bombas.
    Lá fora anoiteceu há duas horas, os carros passam rentes aos grandes vidros da galeria, como rastos a assobiar. Cá dentro há obras de mais de 40 artistas, bandas desenhadas, fotografias, instalações, vídeo, escultura, som, filmes, escrita, pintura, e é entre elas que as pessoas estão sentadas ou de pé, a assistir.
    Tudo isto é uma resposta à guerra do Verão.
    Faz parte do projecto Nafas Beirute, concebido como uma plataforma para mostrar o que os criadores libaneses estavam a fazer enquanto as bombas caíam, ou o que fizeram depois, reactivamente. Nafas quer dizer respiração.
    Gregory fez um filme e escreveu. Ritta escreveu e fez um blog. Zena escreveu, pintou e fez um blog. Mazen escreveu, pintou, desenhou, fez música e fez um blog. Muitos fizeram blogs. Compilações de textos em livros (“Lebanon, Lebanon”). Compilações em CD (“We live”). Alguns continuaram a fazer noites de cine-clube e DJ (Cine Clube Social, quase todas as noites), festivais de cinema (o animado Docudays, Festival Internacional de Documentário de Beirute, que aconteceu de 5 a 12 de Novembro, com salas cheias num Cine-teatro de Beirute Ocidental).
    Sunitas, xiitas, cristãos ou drusos, há de tudo, se alguém fizer questão em perguntar. Eles não fazem. São filhos da guerra civil.
    O apelido de Sandra está em letras gigantes na fachada de um sofisticado edifício de Beirute.
    Há 20 anos, durante a guerra civil, havia que acrescentar: qual Beirute? Para quem está voltado para o Mediterrâneo, e numa divisão grosseira, a parte Ocidental era dos muçulmanos, a parte Oriental dos cristãos. No meio, trincheiras e escombros, a baixa de Beirute.
    Agora, na baixa, toda reconstruída e polida por Rafiq Hariri – o primeiro-ministro assassinado em Febereiro de 2005 -, está a Virgin Megastore, esplanadas com café a três dólares, as montras da Puma para não falar nas de Ungaro (e todos os grandes costureiros, basicamente).
    A fronteira é invisível, mas as duas metades da cidade continuam a existir.
    É em Beirute Oriental, no bairro de Gemmayzé, que está o apelido de Sandra, Dagher, uma das grandes famílias cristãs maronitas.
    O edifício (de escritórios) foi desenhado pelo seu pai, Suhel, arquitecto. Sandra tem uma sala de trabalho muito despojada no terceiro andar. É ruiva e “mignone”, com um sorriso de aluna tímida. Fala inglês com sotaque de Paris. Fala francês sem sotaque.
    “Nasci em Beirute, em 1978, mas levaram-me aos seis meses por causa da guerra. Cresci em Paris, a minha cultura diária é a francesa, a minha língua…”
    A mãe falava-lhe em árabe, mas ela habituou-se a responder em francês. “Estou habituada a ouvir, a compreender árabe, mas falo mal. E não leio e escrevo o árabe da televisão, dos jornais.” O clássico.
    Estudou fotografia em Paris, depois design gráfico em Londres, com férias uma ou duas vezes por ano no Líbano. Entretanto o pai, regressado dos Emirados Árabes Unidos, fizera este prédio, com um espaço aberto ao nível da rua onde ele planeava expôr móveis.
    Uma prima pediu-lho para alugar a artistas em 1998, e no começo de 2000 começou a aliciar Sandra. “A princípio eu não pensava voltar. Mas estou presa a este país de forma incompreensível. Sempre disse que era libanesa, mesmo com passaporte francês. E sentia uma espécie de dever. Há uma culpa de ter um país em que não vivemos e as outras pessoas sofreram. Eu precisava de fazer qualquer coisa. E haver este espaço foi o clic. Criar um espaço cultural era o que eu podia fazer.”
    Vinda de fora, a tropeçar no árabe e filha de quem era, não foi fácil. “Não sabia nada de gestão, fiz centenas de erros. E olhavam-me assim: é jovem, está a divertir-se…”
    Basta passar algum tempo com Sandra para ter a certeza de que ela não se está a divertir. Ou melhor, se está é efeito secundário. Trabalha de manhã à noite e em torno dela tudo parece muito bem oleado.
    “A minha prima conhecia alguns artistas e aqui é muito fácil. Vem-se de Paris e de repente é uma aldeia.” Inaugurou a primeira exposição em Março de 2000. “Pensei sobretudo numa vitrine para jovens criadores. Não tentei roubar artistas a outros espaços. Recebo uma percentagem, mas não tenho um pacote de artistas e não estou interessada no lado comercial.”
    A galeria tornou-se “o maior espaço em Beirute para exposições”. Mas Sandra não queria só uma galeria. “Queria fazer um centro cultural, com livraria, cine-clube, concertos, conferências, um espaço aberto para designers…”
    Foi o que fez, alargando o espaço aos andares por cima da galeria, a partir de Setembro de 2002. E o Espace SD tornou-se um eixo de referência em Beirute (para não dizer no Médio Oriente). Das artes plásticas em geral ao novíssimo documentário, passando pelo neo-punk rock dos Scrambled Eggs ou pela música experimental de Mazen Kerbaj.
    Em Julho, quando a guerra começou, Sandra ficou paralisada. “Nas primeiras duas semanas só estávamos em estado de choque. Via televisão e tudo o que pudesse fazer me parecia fútil. Os israelitas telefonavam durante a noite…” Os israelitas? “Uma máquina, uma gravação com um excelente árabe. “Daqui é o Estado de Israel, o Hezzbollah quer mudar o vosso modo de vida, não mudem…” Sabiam com quem falavam. Dagher, uma maronita do Monte Líbano, vamos ligar-lhe… E ligavam às duas da manhã!”
    Quando Israel invadiu o Líbano, em 1982, aliou-se aos cristãos maronitas liderados por Bashir Gemayel (tio de Pierre Gemmayel, assassinado esta semana). Mais de 20 anos depois, uma tentativa de nova aliança.
    “No princípio fiquei assustada com aquilo. Muitas vezes não sei se os artistas são cristãos ou muçulmanos. Mas isto sou eu. Não podemos esperar que as pessoas no meio do vale de Bekaa [um bastião xiita do Hezzbollah] compreendam os jovens de Beirute em Gemmayzé. Eu tenho amigos xiitas, mas não vivem em Dahiya [bairro do sul de Beirute de maioria xiita, muito destruído por Israel na guerra do Verão]. Como tenho amigos cristãos que ainda têm medo de perder o poder e com quem discuto.”
    Passadas as duas semanas de estado de choque, Sandra reagiu. “Comecei a pensar numa exposição que mostrasse o Líbano lá fora.” Conversou com a artista plástica Zena El Khalil e, uma a amparar a outra, co-curadoras, decidiram organizar o Nafas Beirute num contra relógio. “Primeiro, para dar oportunidade aos artistas que se estavam a exprimir. Segundo, para estimular outros. E terceiro, para criar uma dinâmica entre eles e público, além da televisão e das notícias.”
    Lançaram o desafio a meio de Agosto, dando aos artistas como “deadline” 25 de Setembro. Seleccionaram 45 participantes. A 12 de Outubro inauguraram a exposição e o programa paralelo, com concertos, filmes, uma conferência e a performance de Ritta.
    Dias antes da “jam session”, Ritta fala pelos cotovelos no Torino. Não é que não haja centenas de cafés e bares em Beirute. Mas o Torino é daqueles lugares que se torna o lugar, sem que se perceba muito bem porquê. Mazen Kerbaj só vai aparecer neste texto mais adiante, mas adiante-se já que quem percorrer a sua fantástica obra feita durante a guerra vai encontrar o Torino muitas vezes. Um corredorzinho, um balcão, um espelho ao fundo, um candeeiro a girar como uma lanterna mágica numa montra, um DJ noutra montra.
    Ritta começa logo por dizer que aos nove anos ouviu a palavra Portugal e por causa dela começou a escrever e na verdade talvez a sua poesia venha mesmo daí. E daqui passa para Pessoa. Tem 26 anos. Uma hiperactiva.
    Tem dois livros publicados, em francês. Não escreve em árabe. Está incluída numa antologia da poesia francófona libanesa e o ano passado ganhou a medalha dos Jogos da Francofonia, que tem candidatos de 60 países. Primeiro ganhou o concurso em Beirute para representar o Líbano e depois ganhou a todos os outros. Isto, porque queria viajar ao Níger, onde a final se realizava. “Pensei que era o meu bilhete para ir e concorri. Fiquei um mês em África, fui ao deserto.”
    Filha de dois pequenos funcionários (pai contabilista, mãe admnistrativa), família cristã das montanhas, Ritta viveu em dez sítios diferentes do Líbano nos últimos dez anos da guerra civil, que foram os seus primeiros dez anos de vida. “As minhas memórias são todas de guerra. Flashes na rádio com os nomes das vítimas, as bombas a explodir e não termos abrigos a sério, escondermo-nos nas escadas e nos corredores. E nos dias em que não havia bombas íamos ver o mar e apanhávamos conchas para o ouvir e íamos às montanhas fazer piqueniques. Não havia rotina. Toda esta geração, a minha, guardou esta adição aos sentimentos fortes, extremos. O nosso corpo aprendeu a reagir aquele nível de tensão. Ouves o avião, esperas, não sabes onde vai cair. E depois sais e divertes-te. Até que um dia descobres que não é assim com toda a gente, que não é normal.”
    Cada um encontra o seu abrigo. Em casa de Ritta não havia livros, mas um tio deixou-lhe uma biblioteca ao morrer. “Centenas e centenas de livros, os clássicos franceses, Victor Hugo, Rimbaud, a “Madame Bovary”, livros de pintura, os russos, a “Ana Karenina”, “Os Irmãos Karamazov”…”
    Quando faziam jogos de palavras na escola ela ganhava sempre. “Foi o meu escape do cativeiro da guerra. Talvez porque a língua árabe contenha demasiado absurdo, demasiada emoção, a língua francesa ajudou-me a ter uma janela, a sentir que agarrava a realidade.”
    O árabe não a protegia tanto. “Hoje, há uma beleza, uma sensualidade no árabe que o francês não tem, mas durante a guerra esta biblioteca deu-me a vida que não era a do pânico, da insegurança.” Ela tem histórias de uma bomba a cair no jardim e outra em casa.
    Depois de dez anos de pianos, dois anos de dança, ateliers de expressão plástica e etc, fez um mestrado em psicologia e começou a trabalhar com toxicodependentes e crianças em risco.
    O blog nasceu da guerra. “Estava muito triste e abatida. Comecei a ver o blog do Mazen Kerbaj e fazia-me muito bem, fazia-me rir. Então comecei a fazer o meu e vi que era muito fácil. Ao princípio foi uma sobrevivência. Era uma razão para me levantar da cama, porque não tinha Net em casa. Um meio de sair do extremismo da imprensa nacional e internacional. Tudo o que passava na televisão era ou pró-Israel/Estados Unidos ou pró-Hezzbollah/Irão/Síria. E havia um espaço vazio.”
    O que Ritta sentiu nesta guerra é o que muita gente da sua geração diz ter sentido. “Não é que a guerra tenha recomeçado, é como se nunca tivesse acabado. Há um trabalho de memória a fazer que não foi feito. Estamos na repetição do que os nossos pais disseram.”
    A chamada Primavera de Beirute, depois do assassinato de Rafiq Hariri, o corte com a Síria, a independência face a Damasco, deixam-na céptica. “As raízes do problema não se podem resolver gritando “slogans” contra a Síria. Temos que repensar a nossa pertença ao mundo árabe. Porque é que não há comunicação entre as diferentes religiões no Líbano? Porque é que as nossas diferenças são tão mortíferas? Carregamos todos tantos mortos, há uma raiva ainda, aqui. Não é verdade que tenhamos esquecido a guerra civil. As pessoas ainda seguem os filhos ou os netos dos líderes. Não há evolução.”
    A guerra do Verão funcionou para Ritta como um revelador, e a conclusão não é animadora. “Estes anos de chamada paz foram uma hibernação. Ainda não tomámos conta do nosso destino. Nem sequer temos um livro de História! Depois de 1944, não há um livro de História! E uma das razões é porque é impossível chegar a acordo entre as várias versões.”
    No Líbano não há verdade, só há versões, disse um dia um correspondente do “New York Times” citado por Thomas Friedman no livro “From Beirut to Jerusalem”.
    “Não é a Síria. Foram os libaneses que não protegeram as suas fronteiras. Estamos sempre a acusar os outros. A culpa, a vergonha, os crimes, todos os lados fizeram coisas horríveis uns aos outros.” E então, o que é que Ritta vê? “Vejo negro. E tenho medo. Não é só o meu país. É toda a região. Não sabemos de onde o conflito vai estalar. Entre xiitas e sunitas, o Hezzbollah e Israel, o Hezzbollah e a Primavera de Beirute? Todas as feridas em aberto e mais esta guerra…”
    Em que o Torino não fechou. “As pessoas continuavam a vir aqui, a ir trabalhar, aos bares, à escola. É um mecanismo de sobrevivência que nos salva, mas depois há um momento em que temos de olhar para dentro.”
    “Après la troisième semaine je suis partie / J”ai suivi la route qui lie Beyrouth au nord de la Syrie”, sussurra Ritta na “performance”. “Damas. Budapeste. Helsinki. Une Ile dans la Baltique. / Ritta parmis les blondes.”
    Depois da terceira semana de guerra, partiu para a Finlândia. “Arrisquei a minha vida para passar a fronteira. Durante toda a vida foram sempre os outros a controlar a vida de gente como eu e nunca me pediram opinião. Agora posso decidir. Os meus planos não têm que ser alterados. Partir foi uma forma de autonomia. Senti-me culpada mas era um acto de liberdade.”
    Mazen escolheu ficar. Podia não ter escolha. Tinha (hipótese de viajar para França). Ficou em Beirute. O que fez durante a guerra chegou a centenas de milhares de pessoas em todo o mundo. Inspirou beirutinos da sua geração como Ritta e dezenas de outros bloggers libaneses que explodiram durante a guerra.
    “Bang? Blog”, escreveu ele a 14 de Julho. A guerra estava a começar. A resposta dele era imediata. O Kerblog. Diariamente, por vezes hora a hora, por vezes minuto a minuto, Mazen Kerbaj, autor de banda desenhada, ilustrador, cartoonista, trompetista – e um dos mais respeitados nomes da música de improvisação a nível mundial, assegura o músico português Ernesto Rodrigues – partilhava através de desenhos e bandas desenhadas o que estava a acontecer(-lhe) em Beirute, de onde não saiu a não ser para ir ver o filho às montanhas, numa correria por estradas desertas (também contada no blog).
    Não querer sair de Beirute, não ser capaz de se imaginar a tocar num lugar seguro enquanto as bombas caíssem na sua cidade, custa-lhe logo nos primeiros dias uma tourné de 15 dias pelos Estados Unidos. Na caixa de comentários, há apelos para que saia.
    Mazen fica e partilha ainda mais, som. Vai para a varanda de casa com a trompete e o minidisc a gravar. O resultado é uma extraordinária peça de improviso, “Starry Night”, que pode ser facilmente ouvida na net – Mazen Kerbaj, trompete, Força Aérea Israelita, bombas.
    Os comentários avolumam-se. Alguém lhe escreve a dizer que achou de mau gosto. Mazen reage no blog. Alguém sentado num sofá na América ou na Europa achou de mau gosto gravar bombas. Já agora, não achará de mau gosto lançá-las?
    Fúria de um criador, de resto, incrivelmente “cool”. “Cool” é uma palavra feita para ele.
    Durante a guerra, o blog tornou-se de tal forma um fenómeno que as televisões e os jornais lhe entupiam a caixa de mensagens com pedidos de entrevista. Depois de repetir a mesma coisa cinco vezes num dia, Mazen escreveu em maiúsculas no blog que não havia mais entrevistas.
    Depois da guerra, o ritmo deve ter abrandado. Não foi nada difícil marcar encontro, naturalmente no Torino.
    Mazen traz o bloco já cheio de desenhos desse dia, que mais tarde acabariam no blog. O bloco fica aberto em cima da mesa num auto-retrato de Mazen, com o seu novo “look”, depois de cortar o cabelo e a barba.
    É assim que um esperto se aproxima para lhe gritar ao ouvido (onze da noite no Torino, hora de ponta): “Aposto que desenho melhor do que tu.”
    O que também acabaria no blog.
    Filho de um actor de teatro e de uma artista que durante os 15 anos da guerra civil nunca parou de desenhar, nesta última guerra também fez um blog (www.laureghorayeb.blogspot.com) e anda com ele em digressão, Mazen nasceu em Agosto de 1975, ou seja com a guerra civil.
    A família vivia no bairro cristão maronita de Ashrafieh, muito perto da Linha Verde (que separava as duas Beirutes). Mazen lembra-se aí de umas 18 bombas no seu prédio. De aos 12 anos ter um amigo morto por um “snipper”. “A paz era uma abstracção. Sabíamos dela pelos filmes e assim.” Ir para o abrigo três semanas, isso era normal. “Quando havia bombas não íamos à escola e isso era bom.”
    Mesmo depois da guerra civil acabar, Israel continuou a ocupar o Sul, até 2000, e a Síria o país, até 2005. Essa Primavera de Beirute também não convenceu Mazen. Nem sendo ele um admirador de Samir Kassir, o historiador-jornalista-activista assassinado no ano passado que acreditava que a Primavera de Beirute se iria espalhar aos outros regimes árabes mais ou menos totalitários.
    “Trabalhei como ilustrador com ele. Foi meu mentor. Adorava-o como pensador árabe e intelectual. Hoje usam-no como símbolo do 14 de Março [concentração anti-síria] mas acho que ele estava para além disso. Para ele, essa Primavera era uma coisa focada na renascença cultural árabe e não na conquista de poder.”
    E é poder o que Mazen vê na coligação saída desse movimento, que hoje está no muito abalado governo do Líbano (do qual fazia parte Pierre Gemayel).
    Mazen é muito mais pessimista do que o seu mentor. “Ele tinha que ser um optimista para convencer as pessoas. E ele viu paz. Eu não. A minha geração é uma espécie de “no future”, mas sem o sentido “punk”…”
    O que não está de certeza é parada.
    Por exemplo, desde a guerra alguém quer ter a paciência de contar a quantidade de desenhos e concertos que Mazen fez?
    Gregory Buchakjian – como o nome já indica, um cristão da minoria arménia libanesa – nunca tinha feito um filme de animação na vida. É professor na ALBA, uma das principais escolas de artes plásticas de Beirute. Faz cadernos de viagem com desenhos (hábito que lhe valeu uma interessante experiência nas mãos da polícia egípcia, que por sua vez valeu uma novela recentemente publicada, “Halte”). Foi a guerra que o atirou para a animação.
    Não, ele não está a contar isto no Torino. Na verdade, está na outra ponta da cidade, à beira-mar, em Beirute Ocidental, no café que fica por baixo da roda do Luna Park, frondoso e batido pelo tempo, o que é um alívio em relação aos cafés “franchise” da baixa de Hariri ou da Rue Bliss, onde os duplamente afortunados estudantes da Universidade Americana de Beirute (muito cara, muito bela) fazem fila para o Dunkin & Donuts e o McDonalds.
    Aqui avistam-se os empregados ao longe de quando a quando, talvez se consiga pedir uma limonada, não há quase ninguém, e em frente só o mar.
    O seu filme joga com com duas guerras, a de 1967, quando Israel venceu em seis dias os países árabes, ocupando Gaza, Cisjordânia, Sinai e Montes Golã, e a última.
    “Esta foi a primeira vez que Israel não venceu. Não sei se foi uma vitória do Hezzbollah, mas é a primeira vez que Israel não ganha. Não conseguiu nada no plano militar. E 1967 foi uma vitória esmagadora.” Ora dessa guerra, Gregory ouviu contar a história de como os soldados egípcios fugiram a correr do Sinai, deixando para trás as botas. Pôs-se a imaginar o deserto com milhares de botas. “Não temos nenhuma imagem do Sinai com os sapatos abandonados. Ainda pensei escrever. Mas o quê? Portanto fiz um filme de animação.”
    Uma bota descalçada em seis dias e outra que não se descalça nem em 34. Isto ao som de Herzan, uma canção ícone da geração de Gregory, dos Soap Kills (uma espécie de Massive Attack libaneses).
    “Não é um filme de propaganda. Muita gente fez coisas durante a guerra, eu senti essa necessidade. Não sabia nada sobre animação e nunca tinha pensado fazer um filme de animação que fosse a festivais!” Passou no Beirut Days of Cinema (um dos três que aconteceram nos últimos meses), num festival em Genebra, vai a um festival em Tours.
    E foi incluído no projecto de Sandra Dagher e Zena El Khalil, o Nafas Beirute.
    Entre as peças da mostra colectiva no Espace SD, uma das instalações mais impressionantes é a de Abdallah Kahil, um artista de família xiita a caminho dos 50 anos, que passou mais de 20 em Nova Iorque e regressou ao Líbano em 2002. Na parede há um painel com uma fotografia das ruínas de uma casa multiplicada como um padrão. Por baixo, uma placa de alumínio com um pedaço de míssil encostado. E no chão, livros e revistas encarquilhados, semi-queimados, retirados das ruínas, desde um romance russo a uma revista de arquitectura com um trabalho sobre Rem Koolhas. Kahil chamou a esta obra “Uma casa em que Anne Frank não viveu e livros que Anne Frank não escreveu.” A casa era a da sua família, em Nabatiyeh, no sul do Líbano. Os livros eram os seus. O míssel é israelita.
    Há peças como a encruzilhada árabe de Ziad Abillama (setas a apontar em todas as direcções), o aproveitamento que Fadia Kisrawi Abboud e Maissa Alameddine fizeram dos panfletos lançados pelos aviões israelitas (cada visitante pode escrever uma mensagem, carimbá-los com um “return to sender” e pô-los numa caixa de correio), os sacos de rações de Lina Hakim com os rostos dos adolescentes de famílias deslocadas que se foram voluntariar a centros de ajuda durante a guerra ou o “auto-retrato com controle-remoto” de Randa Mirza que joga com a passividade dos espectadores perante pacotes de horror em prime time.
    Mas o ícone da exposição é o Nasrallah cor-de-rosa e lantejoulas de Zena El Khalil.
    Por estes dias, Zena, 30 anos, está loura platinada. Mas já teve o cabelo de muitas formas. É de uma família drusa das montanhas. Tem uma longa história que aqui não há espaço para contar. Cresceu na Nigéria, onde a família tinha negócios. Os pais foram amigos de Fela Kuti e ela chegou a cruzar-se com o filho, Femi. Aos 15 anos foi para um colégio interno em Londres estudar. Aos 18 quis voltar sozinha para o Líbano, onde na verdade só passara férias. No pós-guerra civil, fez a Universidade Americana de Beirute a viver sozinha num apartamento e descobriu o país “(os anos mais felizes da minha vida”). Aos 23 cansou-se de lutar para ser artista. “Não havia um campo experimental, havia poucos espaços, as pessoas não levavam aquilo a sério…” Em 2000 aterrou em Nova Iorque. Aí projectou, com a ajuda de um cúmplice libanês xadrezista a Xanadu*, um projecto de galeria experimental.
    Ia na 6ª Avenida quando a 11 de Setembro a primeira torre caiu. “Foi estranho ouvir o pânico em inglês, estava habituada a ouvi-lo aqui, em árabe. Foi algo que mudou a minha vida.”
    Lojas árabes começaram a ser atacadas em Brooklyn. Durante uma semana, Zena e os amigos árabes não saíram de casa. Menos o xadrezista, que à noite se voluntariava para ajudar a tirar corpos dos escombros das torres. “Ele ficou muito perturbado. Todos nós.”
    A abertura da galeria (o amigo xadrezista alugou o espaço) foi adiada para Maio de 2002 e de certa forma reflectiu a perturbação do 11 de Setembro. Uma janela para os artistas árabes comunicarem.
    O nome, Xanadu*, é uma questão de fé para esta doce loura platinada. “Ser capaz de ultrapassar o cinismo intelectual. OK, eu li o Derrida e o Foucault, mas agora quero usar lantejoulas, cores, palavras como xanadu e ser emocional, anti-minimalista.”
    Estava a resultar, quando num Verão em Beirute Zena encontrou o homem que agora é seu marido, Decidiram ficar juntos em 18 dias, e ela voltou para o Líbano em 2004, para viver com ele. A Xanadu* mantém-se em Nova Iorque como um espaço físico e em Beirute tem sido um site e um conceito, aliado muitas vezes do Espace SD.
    Toda a sua obra tem a ver com religião e política. É uma reflexão sobre a memória (ou não memória) do Líbano. “As lantejoulas, as cores, são a minha forma de apresentar as coisas. Beirute é isto. É irónica, superficial, hipócrita, talvez para manter a sanidade. Depois de viver esta guerra, percebo porque é que as pessoas são excessivas e há tantos bares e se bebe tanto, e querem trabalhar e fazer dinheiro. As pessoas querem sentir que estão a fazer coisas. Portanto há uma amnésia colectiva, É bom para sobreviver, mas a longo prazo é uma sociedade que pode explodir.”
    Ao fim de dois anos em Beirute, Zena acha que tudo é possível. “É possível uma nova guerra civil. As pessoas não aprenderam a confiar. Eu quero que olhem para os meus retratos e se lembrem da guerra civil. Há tanta gente que matou gente e diz: “OK; tive que o fazer.” Mas não podemos encarar isto assim. Há uma ex-snipper que agora ajuda gente, e é uma excepção. A nossa cultura é muito superficial. Não há um crescimento intelectual e a maior parte dos que estão no Governo há 15 anos estavam nas milícias. Os filhos perderam a infância e agora estão a tentar comprar tudo.”
    A primeira reacção de quem vê o seu Nasrallah rosa e lantejoulas é pensar que é irónico. É e não é, diz Zena. “Recuso-me a tomar uma posição. Não é propaganda e não estou a rir-me dele. Estou a criar uma zona cinzenta que existe no meu coração. Sei que ele fez coisas fantásticas e sei que tem uma agenda alternativa. O problema da guerra é que exige que tomemos partido, e eu não vou fazer isso.”
    Mazen chamaria a isto pessimismo. Mas Zena é uma optimista. Como Mazen, ela não elege ninguém. Mas acredita que tudo pode mudar. Mais que isso. Tem um projecto com o marido, ex-activista do Greenpeace, de ecologia e arte. Simplificando, querem mudar o Líbano. Por exemplo: “Queremos encorajar as pessoas a misturar-se.” A cruzar a fronteira invisível entre Beirute Oriental e Ocidental. Começaram por eles mesmos. Estão a viver em Ashrafieh, que há 20 anos era o bairro das mílicias cristãs inimigas da tribo de Zena.

  2. Tem razão. Mas elas são tão parecidas, nas suas causas, que tanto faria, não estivesse em causa o rigor…

  3. quando eque opublico fexa. Vai la Vai ! Olha o índependente so sucedeao lixoooooo.

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