(II) “Artistas de Esquerda” – Francisco “Politicamente” Moita “Correcto” Flores

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No Correio da Manhã, um senhor que já foi agente da Polícia Judiciária e agora preside à Câmara Municipal de Santarém, rivaliza com José Franco, o patarata do Bloco de Esquerda que utiliza a frase “pessoas que vivem de forma algo oportunista” para designar “ciganos”. O professor doutor Francisco Moita Flores escreve 478 laboriosas palavras, que encerram em si 2.458 caracteres, analisando o tiroteio entre dois grupos de jovens africanos, em Marvila, que provocou sete feridos, sem nunca utilizar apalavra “africanos”! É obra!

Que palavras ou expressões utiliza então o professor doutor Francisco Moite Flores, na sua análise? E quais as principais conclusões dessa análise? As frases e termos substitutivos do sujeito noticioso principal (isto já parece a TLBS…) são vários: “grupos rivais”, “gente vinda de muitos lados”, “gente sem outro destino que não fosse a metrópole”, “concreção de gentes, em perpétuo movimento, de origem diversa, formadas em quadros culturais bem diferentes” e “jovens”. No Público, a jornalista Ana Henriques escreve, preto no branco: “Festa africana acaba em tiroteio com feridos graves”. E explica quem eram os jovens, tão delicadamente referidos por Moita Flores como “gente em perpétuo movimento” (António Gedeão até deve dar saltos, na tumba!): malta que “de África só conhece o que vê na televisão”.

E as conclusões da análise do professor doutor Francisco “Politicamente” Moita “Correcto” Flores? A culpa é da sociedade! Porquê? O professor doutor lembra que “os graves acontecimentos ocorridos em Chelas (..) não podem ser lidos através de lunetas míopes que olham a árvore e não descortinam a floresta.” Certo. Peguemos então num binóculo. Ou num microscópio? O que se passou “é mais um dos episódios que se deve inscrever na sinalização de outros comportamentos de violência mais ou menos recente e que tiveram como palcos o bairro 6 de Maio, o bairro das Fontainhas e outras zonas da grande metrópole lisboeta.” Hummm. Pois.

A gente envolvida nesses actos de violência tem “determinações, expectativas e objectivos aos quais a miragem de ‘grande cidade’ não acrescenta realizações”, explica o professor doutor. Para além disso, “o crescente desvanecimento das relações de vizinhança, a desagregação das relações de interconhecimento individual, a exaltação de mitos que elegem o consumo e o prazer como os ícones do sucesso, a rápida secularização dos comportamentos desvanecendo as antigas relações de autoridade vão abrindo caminho para a assumpção de condutas anormais como forma de manifestação e de conquista de poder numa metrópole onde os vários poderes ‘normais’ crescentemente se vão dissolvendo.”

Diálogo imaginário entre dois jovens africanos, após lerem a crónica de Moita Flores:

  • – “Pá, meu, ke cena, pá… O cota (*) tem razão… Esta city não acrescentou realizações às minhas determinações, expectativas e objectivos!”
  • – “Ya meu, tásse… A mim também não! E os meus cotas que vieram práki a olhar para a Metrópole como a utopia maior onde se podiam realizar os sonhos deles, que ruíram noutras paragens!”
  • – “Pá, meu, tenho aqui uma 9 mm… Vamos praticar alguns actos que são a expressão taciturna, mórbida e tumultusoa de uma imensa mancha demo-ubanística que há muito deixou de ser cidade?”
  • – “Ya, meu… Aguenta um coche (*) … Vou buscar ali a caçadeira de canos serrados do meu tio e vamos mostrar que fazemos parte de um grupo com uma ordem interna que já não se reconhece na ordem externa desta sociedade…”
  • – “Bora, meu… E se a bófia nos apanhar, dizemos que sempre fomos excluídos, marginalizados e alvo de atitudes racistas… E depois pedimos a este cota que escreveu esta cena bué (*) da fixe para ir lá testemunhar que isto resulta do drama de saber ou não saber conter a voracidade sem limite da enorme mancha metropolitana, das suas produções ideológicas!”
  • – “E se o cota fizer a cena que não quer ir?”
  • – “Falo com os meus primos protagonistas de outros comportamentos de violência para lhe darem uma carga de porrada…”

Bem-vindo, meu caro Francisco Moita Flores, a esta galeria de “Artistas” de Esquerda – não necessariamente pintores, escultores ou músicos, mas obrigatoriamente cromos que olham para a floresta e não vêm um boi, como costuma dizer o Povo.

(*) Nota: “cota”, termo de calão originário de Angola e que designa alguém mais velho, alguém idoso, pai ou pais; “coche”, idem, “um pouco” em português; “bué”, idem, “muito” em português.

2 Responses to (II) “Artistas de Esquerda” – Francisco “Politicamente” Moita “Correcto” Flores

  1. The Studio diz:

    A censura que hoje em dia existe na comunicação social está ao nível da de uma qualquer ditadura. Apesar de tudo ainda há alguns jornais que noticiam de forma independente. Quem ler a notícia completa, até irá julgar que não é a mesma que abriu os telejornais. Ver aqui:

    http://www.correiomanha.pt/noticia.asp?id=223221&idselect=10&idCanal=10&p=200

  2. PP&I diz:

    “concreção de gentes, em perpétuo movimento, de origem diversa, formadas em quadros culturais bem diferentes”

    Ah!,ah!,ah!, que prestidigitador. Esta não lembra nem ao gato fedorento. 🙂

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