Angola, o Estado ululante (I)

Diálogo imaginado: 

– “Ché, Manuel João, táji bom? Aqui fala Felismina, a prima da tua cunhada, aquela casada com o irmão do António Cavandame… ”
– “Hi! Felismina… Comé? Tás boa? Família, tudo bem?”
– “Hé, compadre, nem falas! Sabes lá qué qu’aconteceu! Inda hoje minha comadre, aquela que foi na terra dos tuga mi ligou, só chorava, chorava…ai, compadre, vida complicada!”
– “Ché, comadre, com’é? Qual foi o mambo? Essa tua comadre não tinha um primo do sobrinho dela que jogava nos Palancas?”
-” É, compadre, mas depois lhe transferiram para o Alcabideche, lá na Tuga, quando o primo, o Mantorras foi jogar no Benfica. Mas tás a ver, compadre, como já tinha 40 anos, aquilo era só para dar residência, trabalho dele era aí uns negócios que ele tinha na tuga pra importar roupa para Angola,…”
– “E então, comadre? Esses tugas fizeram é o qué que a tua comadre só tá chorar?”
– “Ai, mano, magina só que primo da minha comadre ia com o Mantorras, e a polícia manda parar, depois prende só que o Mantorras, vê bem! Porque só tinha carta de Angola!”
– “Ché! Qué? Prenderam o Mantorras? Esses tugas tão loucos! Carta de Angola não dá em Portugal? Carta é carta, se conduz aqui não conduz lá por quê? Pulas da tuje acham que aqui não ensinam a conduzir?”
– “É verdade, compadre! Colonialismo mesmo, esses pulas não aprendem nunca! Mantorras inda foi na esquadra, vê lá! Só porque é preto, fosse branco já num levavam ele!”
– “Comadre, deixa lá! Esses tugas agora julgam que fazem qué? Vou les dar uma lição! Pera só aí! Vou mandar já polícia fazer uma rusga, apanha esses tugas que andam aqui com carta lá da tuga e vai tudo dentro. Só para les aprender que tem que ter respeito pelos angolanos!”
– “Compadre, mas isso vai dar confusão!”
– “Confusão, nada, comadre! Sou ministro é para qué? Vais ver que esses pulas não tocam mais no Mantorras! Liga lá tua comadre e diz a ela pra dzére ao primo para falar no sobrinho para contar ao Mantorras que já falaste com Manuel João que vai dar uma lição nesses tuga todos!”
– “Ai compadre, brigado mêmo! Você que é mêmo compadre, não esquece família. Vê lá se aparece, agora gente já tem elevador lá no prédio, não precisa subir andares todos.”
– “Apareço, comadre, mas agora vou lá na tuga, mês que vem, tratar do casamento do Iuri.”
– “Iuri? Qual é esse? Filho do teu irmão mais novo?”
– “Não, este Iuri é aquele que é meu sobrinho, tás a ver… Filho da Angélica, amiga da cunhada mais nova da minha irmã…”
– “Sei, sei! Iuri já vai casar, é? Ele faz é o qué, lá na tuga?”
– “Olha, ele tem lá uma cena, montou uma discoteca, manda bué da cumbú, está mesmo assim numa boa.”
– “Olha, manda cumprimento da comadre.”
– “Mando, comadre. Tá descansada, vê só lá amanhã na TVA como vou por esses pulas a andar aí na linha…”

2 Responses to Angola, o Estado ululante (I)

  1. Você tem jeito para guiões. Olhe, fale com o Ricardo Costa do “Brumas”, que ele anda a precisar de um.

  2. Meu caro Mário Lopes, o Ricardo Costa não ia lá, nem como o Michael Crishton como guionista.

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