Textos escolhidos da Literatura Portuguesa (I)

11/28/2006

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“Sua Excelência mandava – e, como esse Inverno ia seco, as obras começaram logo, sob a direcção de um Esteves, arquitecto político e compadre de Vilaça. Este artista entusiasmara o procurador com um projecto de escada aparatosa, flanqueada por duas figuras simbolizando as conquistas da Guiné e da Índia. E estava ideando também uma cascata de louça na sala de jantar – quando, inesperadamente, Carlos apareceu em Lisboa com um arquitecto-decorador de Londres, e, depois de estudar com ele à pressa algumas ornamentações e alguns tons de estofos, entregou-lhe as quatro paredes do Ramalhete, para ele ali criar, exercendo o seu gosto, um interior confortável, de luxo inteligente e sóbrio.

Vilaça ressentiu amargamente esta desconsideração pelo artista nacional; Esteves foi berrar ao seu centro político que isto era um país perdido. E Afonso lamentou também que se tivesse despedido o Esteves, exigiu mesmo que o encarregassem da construção das cocheiras. O artista ia aceitar – quando foi nomeado governador civil.”

in “Os Maias”, Eça de Queirós.


Pérolas da poesia contemporânea – Candidaturas para o “Pior Poeta Português de Sempre”

10/31/2006

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Ora vamos lá fazer um intervalo nas coisas sérias e deixar o espírito vaguear pelo supérfluo, pelo ridículo e pelo mais patusco (embora lamentável…) achincalhamento da língua portuguesa, desde que Gutemberg inventou a Imprensa. Presumo que estes sejam os piores “versos” (?) já publicados no idioma de Camões. Mas como a blogosfera é imensa e a minha capacidade finita, apelo aos que me lêm: ajudem-me a encontrar algo de menor qualidade e a escolher o “Pior Poeta Português”…

Aqui estão mais duas sérias candidaturas:

Leiam, dêm umas boas gargalhadas, mostrem aos amigos e usem como exemplo para os vossos filhos, fazendo-lhes ver que, se não comerem a sopa toda, serão como eles, quando crescerem. Até dia 10 de Novembro, aceitam-se mais candidaturas ao “PPP” (“Pior Poeta Português”). A partir de dia 10 de Novembro, proceder-se-á à votação, através de email, de acordo com o regulamento que nessa altura será divulgado. Participa. Vem e traz um amigo também…


“A Pequena Drummer”, novo livro de John Le Carré…

10/26/2006

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Pelo menos de acordo com a última edição da revista “Visão”. Ainda por cima, numa entrevista feita ao próprio John Le Carré. É verdade que a entrevista foi feita por um jornalista dinamarquês, e traduzida de inglês para português. Mas nenhum responsável passou os olhos pelo texto, antes de a revista ser impressa? Com a devida vénia, transcrevemos a passagem em causa: “Escrevi ‘A Pequena Drummer’ sobre o Médio Oriente e, desde o fim da guerra-fria todos os meus livros se passam no estrangeiro” – John Le Carré, in revista Visão, edição nº 712.

Já agora, esclarecem-se os leitores menos conhecedores da obra de John Le Carré que o livro em questão se chama, no original, “The Little Drummer Girl” e que foi publicado em português com o título “A Rapariga do Tambor”, uma tradução quase literal. O analfabetismo e a ignorância avançam a galope pela Imprensa adentro.


Miguel Sousa Tavares plagiou ou não?

10/25/2006

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Anda aceso o debate, com ameças de pauladas e tudo. O 24 Horas, coitado, dá o exemplo (mais uma vez, gabe-se-lhe a coerência…) do jornalismo feito com os pés, ainda por cima enfiados dentro de um par de botas de montanhismo. Fala, fala, fala, fala, como diz o anúncio e não vai ver ao livro citado pelo anónimo blogue se as passagens do “Equador”, de facto, correspondem ou não ao que foi escrito por Dominique Lapierre e Larry Collins. Lá para final do artigo, diz o 24 Horas, pela pena de Marisa Carvalho (Quando é que teremos uma Kátia Vanessa a escrever num jornal?) que o blogue acusador mostra exemplos de frases inteiras que são iguais, assim como factos, nomes e locais.

Fiel ao seu estilo de jornalismo, o 24 Horas não publica um único exemplo, de forma a não permitir aos leitores que julguem por si próprios. Pior (ou melhor…): falando de outras acusações de plágio, diz que Eduardo Prado Coelho “assinou no Público um texto igual” a um outro, da autoria de João Ubaldo Ribeiro, . E, pasmem, ó almas simplórias, logo na frase seguinte, desmente a afirmação anterior: “Eu nunca publiquei esse texto’, disse Prado Coelho ao Correio da Manhã”. Força, valentes. Com jornalismo destes, não há leitor que vos resista!

Já agora, fomos espreitar o blogue FREEDOMTOCOPY e verificámos que as quatro passagens transcritas são, de facto, quase iguais.  Um exemplo:

  • «(…) O marajá de Gwalior, esse, era antes um obcecado pela caça: matou o seu primeiro tigre aos 8 anos e nunca mais parou – aos 40 tinha morto mil e quatrocentos tigres, cujas peles revestiam por inteiro todas as divisões do seu palácio. (…)» – Miguel Sousa Tavares, «Equador», pág. 246, 1ª Edição, 2003
  • «(…) Bharatpur bagged his first tiger at eight. By the time he was 35, the skins of the tigers he’d killed, stitched together, provided the reception rooms of his palace with what amounted to wall to wall carpeting. (…) The Maharaja of Gwalior killed over 1400 tigers in his lifetime… (…)». – Dominique Lapierre e Larry Collins, «Freedom at Midnight», pág. 174. 2ª Edição, 2003

Não tem nada a ver com o assunto, mas lembro-me agora das primeiras estrofes da letra de uma musiquinha de Chico Buarque, bem antiga: “Não há pecado/ Do lado de baixo/ Do Equador…